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Agosto...

Mês de agosto e tantos acontecimentos. Tempo de alegria e comemoração: aniversário de meu filho Daniel e de meu sobrinho Pedro... tempo de recolhimento e uma certa tristeza, porque foi em um mês de agosto que perdi o meu pai, uma figura forte, importante e querida na minha vida.
Estava pensando que precisava tratar de espantar a minha tristeza quando visitei, no sábado passado, o blog EscutaZé! e encontrei uma dica de leitura: "O Deus das pequenas coisas" de José Ruy Gandra. Texto sensível do Zeca, o cunhado que considero como meu irmão.
O Deus das Pequenas Coisas
Por José Ruy Gandra*

Talvez por conta de termos nos mudado de casa no mês passado, uma certa garoa espiritual tem nos salpicado ultimamente. Seguindo os passos da encantadora Adelita, primeira paixão ardente de sua vida, Paulo, meu filho mais velho, pretende passar alguns meses na Índia, um deles enfurnado em um convento budista. O amor o despertou
espiritualmente. Paulo é cineasta. Adelita, professora de ioga. Pretendem produzir um documentário sobre a vida de um ex-monge, que reencontrará seu guru, e recheá-lo com fragmentos de imagens da cultura indiana. Que inveja!

Por sua vez, Pedro, nosso caçula de 9 anos, na semana passada surpreendeu-nos com essa:
— Pai, mãe. Quero ser batizado. Não quero virar judeu... Disse-lhe que as coisas não eram bem assim. Que sua conclusão era absurda.

Que ele poderia ser batizado, sim, se quisesse. Que, como já havia feito com Paulo, deixara a ele, o maior interessado, essa decisão. Breve atenderemos a seu pedido. Por enquanto, ele permanece pagão.

A conversa, então, desaguou no inevitável: Deus.
— Ele existe, pai? Minha crença, que procuro transmitir a ambos sempre que surge uma brecha, é mais ou menos a seguinte. Deus existe, sim. E cada um o vê a seu modo. Perdoem-me os adeptos do Big Bang. Mas, por mais eu que tente, não dou conta de conceber conceitos como universo, vida, destino, paixões ou sincronicidade sem recorrer ao sagrado.

EM TODA PARTE

Martelo, porém, numa clara distinção. Deus é uma coisa. Religião é outra. Ele é um só. Elas (mesmo acreditando
que ele seja único) são muitas.

Deus é bom. As religiões, mesquinhas. No fundo, todas exibem facetas de arrepiar os cabelos. Padres assexuados ou pervertidos. Pregadores histéricos. Rabinos obcecados. Idiotas capazes de se explodir em nome de Alá. Sim, sim, sim. Há também muitas boas almas nos templos. Mas é a premissa que me incomoda. Parodiando alguém cujo nome me escapa, fé é um assunto sério demais para ser deixado na mão dos sacerdotes.

Prefiro verdades mais simples. Por isso, sem muita insistência, incentivo Paulo, e principalmente Pedro, que é mais novinho, a ver Deus em toda parte. Na folha que cai, no vento que sopra, na face da mãe, na comida à mesa, nos desejos que se cumpriram. Se tivesse de chamar esse ser de algum nome, eu me valeria de um livro que nunca li, mas cujo título considero um achado: O Deus das Pequenas Coisas.

Isso mesmo. Deus é aquela poeirazinha do sagrado que habita os vãos dos detalhes. As gentilezas. Um dia de trabalho sereno. Estrelas no céu. A água quentinha a escorrer pelo corpo ao final de um dia. Deus para mim é isso - e, como disse Guimarães Rosa, "todas as outras coisas".

O importante, fundamental, é que cada um possa vê-lo onde e da maneira que bem entender. É provável que Pedro consiga enxergá-lo em alguma fase de um game. Paulo vai até a Índia atrás dele (e da Adelita).

Ultimamente o tenho visto com freqüência nos velhos galhos do majestoso flamboyant que enfeita o quintal de nossa
nova casa. O sagrado não cabe na caretice das igrejas. Prefere o aconchego de nossos corações. Deus é minúsculo. Por isso pode estar por toda parte.

Publicado na Revista Vip (novembro de 2005)


Em tempo, espero ansiosa pelo batizado do Pedro! Afinal, a madrinha sou eu!

Comentários

Anônimo disse…
Mimi,

Teu blog está lindo. Faço questão de deixar regitrada nele minha alegria por tâ-la como cunhada-sister e, também, minha eterna gratidão pela construção do meu blog.
Beijo carinhoso!

Zé Ruy
Anônimo disse…
Por favor, "alegria de tê-la como cunhada sister" e não "tâ-la". Sorry, folks!

ZRG

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